terça-feira, 7 de outubro de 2014

RESENHA: O SEGUNDO SEXO



Segundo Sexo ( 1949) de Simone de Beauvoir é um estudo  sobre a mulher na sociedade,  publicado numa época   em que  mulher já estava começando a se libertar do jugo machista, mas que ainda encontrava diversos obstáculos. Beauvoir  faz uma análise, histórica, social, psicológica e biológica sobre o papel da mulher na sociedade, negando completamente idéias  e estudos que  tratem de uma suposta natureza feminina. O livro é riquíssimo em informações, análises profundas e bem fundamentadas, numa tentativa exaustiva de mostrar que o "ser mulher" é algo construído histórica e socialmente, tanto quanto a submissão dela  em relação ao outro sexo. Sua intenção era desconstruir a tese do " instintos biológico feminino", a quem  considera não um pressuposto natural imutável, mas sim uma condição culturalmente construída. Beauvoir  rejeita a ideia que foi a "natureza inferior" da mulher que determinou a condição de segundo sexo, mas sim sua  invisibilidade histórica. Já que  não importa se sendo mãe, esposa, moça ou prostituta, a mulher, sempre se definiu por sua função em relação ao homem, encarnando aquilo que ela chamou de "Outro". Propõe que seria através da formação de uma consciência autônoma e da liberdade econômica que  a mulher pode ser livre e ter plena autonomia sobre seu corpo e seu destino.

Para quem não sabe Simone de  Beauvoir (1908-1986) era uma  famosa intelectual francesa do século XX,  que acabou se tornando uma referência para o movimento  feminista e estudos de gênero.  Era filha de uma família burguesa e teve uma espécie de relacionamento com Jean Paul Sartre, filósofo existencialista francês. Em O Segundo Sexo ela mostra um forte viés da dalética marxista e do existencialismo satreano,  marcado pela frase que abre o livro " Ninguém nasce mulher. Torna-se mulher", uma espécie de norte para as  discussões de Beauvoir. A autora tenta desconstruir os mitos femininos formados ao longo do tempo  sobre a suposta natureza perversa da mulher, o mito do amor materno e a ideia religiosa da "mulher santa" construída pela Igreja Católica. Por isso  é tão bom que mesmo após de 60 depois de sua primeira publicação, ainda é um referência sobre a  história da mulher,  pois nos dá uma clara  noção sobre como ocorreu o processo de  construção de gêneros.

A obra encontra-se dividida em dois volumes. O primeiro  eu achei simplesmente brilhante face  as análises tão bem fundamentadas sobre a mulher e sua situação na sociedade. Mas no segundo volume achei mais chato, especialmente porque  deixa transparecer determinados conceitos pessoais da autora. Há momentos em que parece    ser ressentida por sua condição. Acredita que a mulher  do ponto de vista biológico, ao contrário do macho,   nada mais é do que uma escrava da espécie.   Porque   é ela que carrega o feto consigo, é que garante a sua subsistência, tem a obrigação de cuidar, dar comida e amamentá-lo  até que ele esteja pronto para seguir sua própria vida. Cabe a ela sustentar a espécie e seus filhos, portanto, segundo Beauvoir  sua existência na Natureza se resume apenas isso. Tem alguns parágrafos que ele demostra até uma certa inveja do sexo masculino, o que sinceramente não me agrada. Enfim, tenho problemas com moças que tem inveja de homem. Vê neles todas as qualidades do mundo e na mulher as piores  maldições. Pode parece infantil da minha parte, mas sou muito feliz  por ser mulher e sou muito resolvida com isso. Tenho plena certeza de que tenho as mesmas capacidades que um homem e as poucas diferenças biológicas existentes não são   fortes  o suficiente para me ver como a "amaldiçoada da natureza". Não vejo a  maternidade ou o cuidado com a  criança uma maldição, pelo contrário, dar vida é um privilégio. Afinal  acho que   "a melhor coisa de ser mulher é poder usar o pretexto de "ser liberada" para fazer o que quer sem te condenarem e ainda acharem que você só está sendo "moderna" ( Cara! I feel like women) ..

Há também algumas análises sobre a situação da mulher, a quem dá o nome de " experiência vivida" que achei para meus olhos de moça do século XXI, admiradoras de Fionas e não de Cinderelas um tanto quanto datada. Por exemplo, sobre a  questão da "virgindade". Sério, não consigo enxergar que tipo de moça possa ter problemas hoje em dia  em ser virgem. a não ser, claro, que  tenha 15 anos de idade. Ela também vê a função de mãe e esposa e até mesmo o casamento como uma prisão dos infernos para a mulher, uma verdadeira pedra de tropeço nas suas vida. Nada mais além do que um fardo. Para ela todas as mulheres que são mães e esposas são umas infelizes, sem liberdade e sem vida.  De fato, para época em que ela escreveu tudo era uma verdade-verdadeira, mas hoje em dia casamento é uma escolha, assim como ser mãe. As pessoas se casam por amor e não por obrigação ou com medo de ficar para " titia".Existem mulheres casadas, mães, solteiras,  ou aquelas que se dedicam a sua carreira, e muitas são felizes a seu modo.Mas entendo até porque na época que escreveu o livro  na década de 50 a mulher não tinha muita escolha mesmo e  seu destino já era pré-determinado pela sociedade e pela família.Além  disso,   Simone era  adepta do amor livre, não é de se admirar que seja contra o casamento.  Entretanto, apesar destas  e algumas outras ressalva, considero uma obra  extremamente relevante por ser percursora nos estudos  sobre gêneros. Um verdadeiro ícone da literatura feminista. Apenas se deve ter cuidado para depois que ler não se alienar  tanto a ponto de pegar a amar e sair para a guerra dos sexos. Porque isso  já seria infantilidade




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